O primeiro caso da pandemia pelo novo Coronavírus, SARS-CoV2, foi identificado em Wuhan, na China, no dia 31 de dezembro do último ano. Desde então, os casos começaram a se espalhar rapidamente pelo mundo; iniciando-se claramente pelo continente asiático, e posteriormente de forma quase avassaladora e em cascata atingindo o restando do mundo. Em março/2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu o surto da doença como pandemia. O Brasil identificou a primeira contaminação pelo novo Coronavírus no final de fevereiro de 2020, enquanto a Europa já registrava centenas de casos de Covid-19. A declaração de transmissão comunitária no país veio em março, mês em que também foi registrada a primeira morte pela doença.

  • Mundo:
    => 163.312.429 casos confirmados de COVID-19;
    => 3.386.825 mortes secundárias à COVID-19 e;
    => 1.264.164.553 doses de vacina administradas.
  • Brasil:
    ð 15.627.475 casos confirmados de COVID-19;
    ð 435.751 mortes secundárias à COVID-19 e;
    ð 45.902.068 doses de vacinas administradas.

Paralelamente à vigente pandemia atual e “viral”, ficaram em segundo plano e até mesmo negligenciadas, inúmeras outras doenças; tais como as doenças cardíacas, acidentes vasculares e as neoplasias; que quer queiram ou não, continuam contribuindo para grande morbi-mortalidade em toda a população.
Segundo dados publicados na prestigiada revista Science2, há uma previsão de acúmulo de mortes secundárias ao câncer (chamadas de mortes correlatas), principalmente relacionadas aos cânceres de cólon e mama devido ao impacto negativo da epidemia sobre o diagnóstico precoce e sobre a assistência dos pacientes em tratamento.

O presente artigo tem caráter descritivo, objetivando relatar os principais dados referentes à pandemia e o câncer, bem como de fomentar discussões a respeito de tão importante tema – através da busca de respostas à quesitos e perguntas primordiais dentro da especialidade, tais como:

  • Como está o gerenciamento do diagnóstico e tratamento do câncer?
  • Os exames de screening (rastreio) estão sendo realizados de forma adequada?
  • Houve redução do número de pacientes em tratamento?
  • Houve aumento da mortalidade por câncer?

A pandemia do Coronavírus (COVID-19) impactou os sistemas de saúde em todo o mundo. Os procedimentos eletivos, incluindo o rastreamento de câncer, foram suspensos na maioria dos países pela necessidade de priorização das urgências e redução do risco de disseminação do novo Coronavírus (SARS-CoV-2) nos serviços de saúde.

O cenário é assustador: só em biópsias, importantes para a confirmação do diagnóstico, houve uma redução de quase 40%5, comparando março a dezembro de 2020 com o mesmo período de 2019. Nos Estados Unidos, houve uma redução de aproximadamente 60% a 99% no rastreamento do câncer ocorrido entre Janeiro e Junho de 20208,9,10. Sem detecção, não há tratamento. Sem diagnóstico, a doença avança e caem as chances de cura. É uma bomba-relógio!

Se, em um cenário sem pandemia, já tínhamos de batalhar para incentivar a prevenção e o diagnóstico precoce, agora esse esforço não precisa ser apenas mantido, mas intensificado. É triste projetar que, com ou sem Covid-19, vamos enfrentar um surto de tumores avançados, que deixaram de ser flagrados e tratados a tempo.

Não existe uma abordagem do tipo “tamanho único” para o tratamento do câncer durante a pandemia COVID-19 e não há diretrizes internacionais. As decisões de triagem e tratamento geralmente devem ser feitas caso a caso e geralmente dependem do estado da COVID-19 em uma comunidade individual e da disponibilidade de recursos.

O reinício do rastreamento de câncer demanda uma análise criteriosa dos riscos e benefícios envolvidos, considerando o cenário epidemiológico no contexto local, a capacidade de resposta da rede de atenção à saúde e o histórico pessoal dos usuários. É aconselhável contrabalançar individualmente o risco de adiamento do rastreamento de câncer e o risco de contágio com o novo coronavírus, desenvolvimento da COVID19 e fatores prognósticos associados a piores desfechos.

Estudo de coorte realizado nos EUA, descobriu que com declínios acentuados e subsequentes recuperações das taxas mensais de rastreamento do câncer de mama, colorretal e próstata em 2020, permaneceu um deficit de rastreamento estimado de 9,4 milhões associado à pandemia COVID-19 para a população dos EUA (gráficos 1, 2 e 3). Os declínios na triagem diferiram por região geográfica e índice de status socioeconômico, e o uso de telessaúde foi associado a taxas de triagem mais altas.

Tem havido uma preocupação crescente sobre as ramificações da suspensão dos programas nacionais de rastreio durante a pandemia11,12,13. Atrasos no rastreamento do câncer podem levar a uma taxa mais alta de pacientes diagnosticados em um ambiente de emergência, mais diagnósticos de cânceres em estágio avançado14 e atrasos no tratamento eficaz para pacientes com neoplasias recém-diagnosticadas, todos os quais podem impactar a mortalidade futura por câncer.

Após mais de 1 ano do início da pandemia, é certo que já evoluímos bastante no que tange as abordagens de tratamento da síndrome respiratória provocada pelo novo Coronavírus e de suas complicações secundárias. Evoluímos também em relação aos cuidados com o paciente oncológico (orientações para rastreio diagnóstico e preparação para tratamento); ainda tivemos a benesse do desenvolvimento de vacinas em tempo oportuno, cujas quais tem apresentado índices satisfatórios de imunigenicidade. Não obstante, precisamos continuar evoluindo, pesquisando, progredindo, para que em um futuro próximo, possamos retornar à nossa rotina individual, familiar e social se não normal, pelo menos o mais próximo à ela.

Concluindo, precisamos lembrar e reforçar que o tratamento do câncer tem mais sucesso quando realizado em seu estágio inicial.

Dessa forma, não vamos permitir que o medo ou a desinformação promovam o adiamento de exames essenciais ou os protocolos de tratamento recomendado pelos Oncologistas, Hematologistas ou Radioterapeutas, pois, o CÂNCER NÃO FAZ QUARENTENA!

Referências bibliográficas:

1) https://covid19.who.int/region/amro/country/br (acessado em 18/05/2021).

2) Science 19 Jun 2020:Vol. 368, Issue 6497, pp. 1290.

3) WHO. COVID-19 significantly impacts health services for noncommunicable diseases. World Health Organization (WHO); 2020. Disponível em: https://www.who.int/news-room/detail/01-06-2020-covid-19-significantly- impacts-health-services-for-noncommunicable-diseases (acesso em 07/07/2020).

4) PAHO. Considerations for the Reorganization of Cancer Services during the COVID-19 Pandemic. Pan American Health Organization (PAHO); 2020.
7
Disponível em: https://iris.paho.org/handle/10665.2/52263 (acesso em 07/07/2020).

5) https://saude.abril.com.br/blog/com-a-palavra/a-hora-e-agora-precisamos-olharpara-o-cancer-apesar-da-pandemia/ (acessado em 18/05/2021)

6) https://www.uptodate.com/contents/covid-19-cancer-screening-diagnosis-posttreatment-surveillance-in-uninfected-patients-during-the-pandemic-and-issuesrelated-to-covid-19-vaccination-in-cancerpatients?search=covid%20and%20cancer&source=search_result&selectedTitle =2~150&usage_type=default&display_rank=2 (acessado em 18/05/2021).

7) https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files//media/document//nota_tecni ca_rastreamento_covid_jul_2020.pdf (acessado em 18/05/2021).

8) J Gen Intern Med. 2021 Mar 19;1-3. doi: 10.1007/s11606-021-06660-5.

9) J Natl Cancer Inst. 2021 Mar 29;djab045. doi: 10.1093/jnci/djab045

10) JAMA Oncol. 2021;7(3):458. doi: 10.1001/jamaoncol.2020.7600.

11) Lancet Oncol. 2020;21(6):748. Epub 2020 Apr 30.

12) Eur J Surg Oncol. 2020;46(11):2154. Epub 2020 May 11.

13) Nat Rev Gastroenterol Hepatol. 2020;17(8):444. 14) ESMO Open. 2021;6(2):100055. Epub 2021 Feb 12. 15) JAMA Oncol. Published online April 29, 2021. doi:10.1001/jamaoncol.2021.0884.

Autor

Thayles Vinícius Moraes Médico formado pelo IMES em 2009 (CRMMG: 50063) Especialista em Clínica Médica – Residência Médica (HECI – 2010/2012) Especialista em Oncologia Clínica – Residência Médica (FMABC – 2012/2015) Auditor Médico em Saúde – MBA (Uninter – 2019/19) Oncologista Clínico da Hope Oncologia e Unimed Vale do Aço http://lattes.cnpq.br/8074699618884594

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